O material apresentado nesta seção do Blog, deve ser lido e considerado em seu contexto histórico e sua relevância para a formação do pensamento político, social, e até o teológico da sociedade moderna e dos diversos momentos da história da humanidade. Isto, entretanto, não significa dizer que subscrevo todas as idéias contidas nos textos e livros aqui publicados, mas apenas que reconheço a importância que exerceram e exercem sobre a história de todo o pensamento ocidental. Creio que todos terão o discernimento e filtro característicos daqueles que possuem a mente de Cristo, levando ainda, em consideração, o ensinamento de 1 Tessalonicenses 5:21 - Examinai tudo. Retende o bem.

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sexta-feira, agosto 11, 2006

Filiação Religiosa e Estratificação Social

A ÉTICA PROTESTANTE E O ESPÍRITO DO CAPITALISMO


Filiação religiosa e estratificação social

Uma simples olhada nas estatísticas ocupacionais de qualquer país de composição religiosa mista mostrará, com notável freqüência, uma situação que muitas vezes provocou discussões na imprensa e literatura católicas e nos congressos católicos, principalmente na Alemanha: o fato que os homens de negócios e donos do capital, assim como os trabalhadores mais especializados e o pessoal mais habilitado técnica e comercialmente das modernas empresas é predominantemente protestante.

Este fato não se verifica apenas onde a diferença de religião coincide com uma nacionalidade, e portanto com seu desenvolvimento cultural, como no caso da Alemanha oriental e da Polônia. Observamos a mesma coisa onde se fez levantamentos de filiação religiosa, por onde quer que o capitalismo, na época de sua grande expansão, pôde alterar a distribuição social conforme suas necessidades e determinar a estrutura ocupacional. Quanto maior foi a liberdade de ação, mais claro o efeito apontado.

É bem verdade que a maior participação relativa dos Protestantes na propriedade do capital, na direção e nas esferas mais altas das modernas empresas comerciais e industriais pode em parte ser explicada pelas circunstâncias históricas oriundas de um passado distante, nas quais a filiação religiosa não poderia ser apontada como causa de condição econômica, mas até certo ponto parece ser resultado daquela.

A participação nas funções econômicas envolve geralmente alguma posse de capital e uma dispendiosa educação e, muitas vezes, de ambas. Hoje tais coisas são largamente dependentes da posse de riqueza herdada, ou, no mínimo, de certo bem estar material. Certo número dos domínios do velho império, que eram mais economicamente desenvolvidos, mais favorecidos pela situação e recursos naturais, particularmente a maioria das cidades mais ricas, aderiram ao Protestantismo no século XVI.

Os resultados de tais circunstâncias favorecem os protestantes, até hoje, na sua labuta pela existência econômica. Surge assim a indagação histórica: porque os lugares de maior desenvolvimento econômico foram, ao mesmo tempo, particularmente propícios a uma revolução dentro da Igreja? A resposta não é tão simples como se poderia pensar.

A emancipação do tradicionalismo econômico parece sem dúvida ser um fator que apóia grandemente o surgimento da dúvida quanto à santidade das tradições religiosas e de todas as autoridades tradicionais. Devemos porém notar, fato muitas vezes esquecido, que a Reforma não implicou na eliminação do controle da Igreja sobre a vida quotidiana, mas na substituição por uma nova forma de controle. Significou de fato o repúdio de um controle que era muito frouxo e, na época praticamente imperceptível, pouco mais que formal, em favor de uma regulamentação da conduta como um todo, que penetrando em todos os setores da vida pública e privada, era infinitamente mais opressiva e severamente imposta.

A regra da Igreja Católica, "punindo o herege, mas perdoando o pecador”, mais no passado do que no presente, é hoje tolerada pelas pessoas de caráter econômico completamente moderno, e nasceu entre as camadas mais ricas e economicamente mais avançadas do mundo por volta do século XV. Por outro lado, a regra do Calvinismo como foi imposta no século XVI em Genebra e na Escócia, entre o século XVI e XVII em grande parte da Holanda e no século XVII na Nova Inglaterra e, por algum tempo na própria Inglaterra, se tornaria a forma mais intolerável de controle eclesiástico do indivíduo que já pôde existir. E foi exatamente isso que foi sentido por uma grande parte da velha aristocracia comercial da época de Genebra, da Holanda e da Inglaterra. E a queixa dos reformadores, nestas regiões de grande desenvolvimento econômico, não era o excesso de controle da vida por parte da Igreja, mas a sua falta.

Como, pois, aconteceu que os países mais economicamente avançados da época, e suas classes médias burguesas, não só não se opuseram a esta tirania inédita do Puritanismo, como chegaram a desenvolver sua heróica defesa? A burguesia raramente mostrara tal heroísmo antes e nunca o mostrou depois. Foi o “nosso último heroísmo”, como disse Carlyle não sem-razão.

Além disso, há algo especialmente importante: pode ser, como já foi aventado, que a maior participação dos protestantes nas posições de proprietário e de dirigente na moderna vida econômica seja entendida hoje, pelo menos em parte, simplesmente como resultado da maior riqueza material herdada por eles. Contudo, há certos fenômenos que não podem ser explicados por esse caminho. Só para citar alguns, há uma grande diferença perceptível, em Baden, na Baviera e na Hungria, no tipo de educação superior que católicos e protestantes proporcionam a seus filhos. O fato de a porcentagem de católicos entre os estudantes e os formados nas instituições de ensino superior ser proporcionalmente inferior à população total, pode, certamente, ser largamente explicado em termos de riqueza herdada. Porém, entre os próprios formados católicos, a porcentagem dos que receberam formação em instituições que preparam especialmente para os estudos técnicos e ocupações comerciais e industriais, e em geral para a vida de negócios de classe média, é muito inferior à dos protestantes. Por sua vez, os católicos preferem o tipo de aprendizagem oferecido pelos ginásios humanísticos. Essa é uma circunstância à qual não se aplica a explicação acima apontada, mas que, ao contrário, é uma das razões do pequeno engajamento dos católicos nas empresas capitalistas.

Mais notável ainda é um fato que explica parcialmente a menor proporção de católicos entre os trabalhadores especializados na moderna indústria. Sabe-se que as fábricas arregimentaram boa parte de sua mão de obra especializada entre os jovens artesãos; contudo, isso é muito mais verdadeiro para os diaristas protestantes que para os católicos.

Em outras palavras, entre os diaristas católicos parece preponderar uma forte tendência a permanecer em suas oficinas, e tornar com freqüência mestres artesãos, enquanto os protestantes são fortemente atraídos para as fábricas, para nelas ocuparem cargos superiores de mão de obra especializada e posições administrativas.

A explicação desses casos é, sem dúvidas que as peculiaridades mentais e espirituais adquiridas do meio ambiente, especialmente do tipo de educação favorecido pela atmosfera religiosa da família e do lar, determinaram a escolha da ocupação e, por isso, da carreira.

A menor participação dos católicos na moderna vida de negócios da Alemanha é tão notável justamente porque contraria a tendência observada em todos os tempos, até mesmo no presente.

As minorias nacionais ou religiosas, em posição de subordinação em relação a um grupo de governantes, pela sua exclusão voluntária ou involuntária das posições de influência política, são aparentemente engajadas com especial vigor nas atividades econômicas. Seus membros mais aptos buscam o reconhecimento de suas habilidades nesse campo, uma vez que não há oportunidades a serviço do Estado.

Isso, sem dúvida, mostrou-se verdadeiro com os poloneses na Rússia e na Prússia Oriental, onde, contrariamente ao que ocorreu na Galícia, de onde provinham, conseguiram um desenvolvimento econômico mais rápido. O mesmo ocorreu em outros tempos com os huguenotes, na França de Luís XIV, com os não conformistas e quakers na Inglaterra, e finalmente com os judeus durante os últimos dois mil anos. Mas os católicos da Alemanha não mostraram nenhuma evidência desse tipo. Também no passado, contrariamente aos protestantes quer da Holanda quer da Inglaterra, na época em que eram perseguidos ou apenas tolerados, não alcançaram desenvolvimento econômico relevante. Resta, por outro lado, observar o fato de os protestantes (especialmente certos ramos do movimento, que serão amplamente discutidos adiante), quer como classe dirigente, quer como subordinada, tanto em maioria como em minoria, terem mostrado uma especial tendência para desenvolver o racionalismo econômico, fato que não pode ser observado entre os católicos em qualquer das situações citadas. A explicação principal de tais diferenças deve pois ser procurada no caráter intrínseco permanente de suas crenças religiosas, e não apenas em suas situações temporárias externas, históricas e políticas.

Nossa tarefa será investigar essas religiões com o intuito de descobrir as particularidades que têm ou que tiveram, que resultaram no comportamento descrito acima. Numa análise superficial, e com base em certas impressões comuns, poderíamos ser tentados a admitir que a menor mundanidade do catolicismo, o caráter ascético de seus mais altos ideais tenha induzido seus seguidores a uma maior indiferença para com as boas coisas deste mundo. E tal explicação reflete a tendência de julgamento popular de ambas as religiões.

Do lado protestante, é usada como base das críticas de tais ideais ascéticos (reais ou imaginários) do modo de viver católico, enquanto os católicos respondem com a acusação de que o materialismo resulta da secularização de todos os ideais pelo protestantismo.

Um escritor contemporâneo tentou definir a diferença de atitudes diante da vida econômica da seguinte maneira: “O católico é mais quieto, tem menor impulso aquisitivo; prefere uma vida a mais segura possível, mesmo tendo menores rendimentos, a uma vida mais excitante e cheia de riscos, mesmo que esta possa lhe propiciar a oportunidade de ganhar honrarias e riquezas. Diz o provérbio, jocosamente: “Coma ou durma bem”. Neste caso, o protestante prefere comer bem, e o católico, dormir sossegado”.

De fato, esse desejo de “comer bem” pode ser encarado como uma caracterização correta, embora incompleta, da motivação de muitos dos protestantes da Alemanha atual. Mas as coisas nem sempre foram assim: os puritanos ingleses, americanos e holandeses tinham a característica exatamente oposta à alegria de viver, um fato que é, como veremos, da maior importância para o nosso estudo. Além disso, os protestantes franceses, entre outros, conservaram e ainda conservam, em certa medida até hoje, as características das igrejas calvinistas de todos os países, especialmente as sob a cruz do tempo das guerras religiosas.

Não obstante, tais características foram (ou talvez tenham sido até as causas, como indagaremos mais adiante) sabidamente um dos mais importantes fatores de desenvolvimento do capitalismo e da indústria na França, e assim permaneceu, na pequena escala permitida pelas perseguições que sofreram. Se pudermos chamar essa seriedade e predominância de interesses religiosos na conduta geral da vida de alheamento da matéria, então os calvinistas franceses foram e ainda são tão desapegados do mundo quanto os católicos do norte da Alemanha, para os quais sua fé é tão vital como para poucos povos no mundo.

Ambos diferem de modo semelhante da tendência religiosa predominante em seus respectivos países. Os católicos da França são, em seus escalões inferiores, grandemente interessados nos prazeres da vida e, nas camadas superiores, francamente hostis à religião. Os protestantes da Alemanha, do mesmo modo, são absorvidos pelas atividades econômicas diuturnas e, nas suas camadas superiores, são muito indiferentes à religião.

Dificilmente alguma coisa poderá mostrar tão claramente como essa comparação que, tais vagas idéias, como o suposto desapego do Catolicismo e da suposta alegria materialista do Protestantismo, e outras semelhantes, de nada servem para o nosso propósito. Tais termos gerais de diferenciação não refletem os fatos de hoje, e certamente nem mesmo os passados.

Se contudo alguém quiser delas se utilizar, deverá associar-lhe diversas outras observações que sugiram que o aparente conflito entre o desapego, o ascetismo e a devoção eclesiástica de um lado, e a participação na aquisição de bens materiais do outro, possam de fato vir a apresentar um íntimo relacionamento.

Um fato que nos parece certamente notável, para começar com uma observação superficial, é o grande número de representantes das formas mais espirituais da fé cristã que se originaram nos círculos comercias. O Pietismo, em particular, tem grande número de seus seguidores mais zelosos com essas origens. Isso pode ser explicado como uma espécie de reação contra a cobiça por parte das naturezas sensíveis não adaptadas à vida comercial e, como no caso de Francisco de Assis, muitos pietistas interpretaram sua conversão desse modo.

Do mesmo modo, é uma notável circunstância que muitos dos maiores empreendedores capitalistas – até Cecil Rhodes – tenham tido origem em famílias de clérigos, o que pode ser interpretado como uma reação contra a sua formação ascética.

Essa forma de explicação, contudo, torna se falha quando se combinam um extraordinário senso capitalístico dos negócios com as mais intensas formas religiosas nas mesmas pessoas e grupos, e que lhes penetra e direciona a vida toda.

Esses casos não são isolados, mas seus traços são característicos de muitas das mais importantes Igrejas e seitas da história do Protestantismo. O Calvinismo, em especial, por onde quer que tenha surgido, mostrou essa combinação. Embora de pouca monta no tempo da expansão da Reforma, ele (como qualquer outra crença protestante) estava associado a certas classes sociais específicas, e é característico e até típico que, nas Igrejas dos Huguenotes da França, monges de negócios (comerciantes e artesãos) fossem especialmente numerosos entre os fiéis, especialmente no tempo das perseguições. Mesmo os espanhóis sabiam que a heresia (isto é, o Calvinismo holandês) promovia os negócios, e isso coincide com as opiniões que Sir William Petty manifestou em sua discussão sobre as razões do desenvolvimento capitalista da Holanda. Gothein qualifica corretamente a diáspora calvinista como a semente da economia capitalista. Mesmo em tais casos poderia se considerar como fator decisivo a superioridade das culturas econômicas francesa e holandesa de onde se originaram tais comunidades, ou talvez a imensa influência desses na quebra das relações tradicionais. Mas a situação na França, como sabemos pela luta de Colbert, era a mesma até o século XVII. Mesmo a Áustria, para não citar outros países, importava diretamente artífices protestantes.

Mas nem todas as ramificações protestantes parecem ter tido a mesma poderosa influência nesse sentido. A do Calvinismo, mesmo na Alemanha, parece ter sido das mais fortes, e a fé reformada parece ter promovido o desenvolvimento do espírito do capitalismo no Wupperthal como em outros lugares. Muito mais que o Luteranismo, parecem prová-lo comparações gerais e particulares, especialmente no Wupperthal. Buckle e, entre os poetas ingleses, Keats, enfatizaram essa mesma relação com a Escócia. Ainda mais notável, e que deve ser só mencionada, é a ligação entre um modo de vida religioso e o mais intenso desenvolvimento da acuidade comercial entre aquelas seitas cujo desapego do mundo é tão proverbial quanto sua riqueza, especialmente os Quaker e menonitas. O papel que os primeiros desempenharam na Inglaterra e na América do Norte, coube aos últimos na Alemanha e na Holanda.

Os menonitas foram tolerados por Frederico Guilherme I, na Prússia Oriental por tê-los como indispensáveis para a indústria, a despeito de sua absoluta recusa de prestar serviço militar; e esse é um dos numerosos e conhecidos fatos que, considerando o caráter daquele monarca, torna-se dos mais significativos. Por fim, essa combinação de intensa religiosidade com igualmente forte desenvolvimento da acuidade comercial, característica comum aos Pietistas, é um fato amplamente conhecido.

É desnecessário acumular mais exemplos nesta discussão meramente introdutória; esses poucos já deixam claro um ponto: que o espírito de intenso trabalho, de progresso, ou como se queira chamá-lo e cujo despertar se esteja propenso a atribuir ao Protestantismo, não deve ser entendido, como é a tendência, como uma alegria de viver ou por qualquer outro sentido ligado ao Iluminismo. O velho Protestantismo de Lutero, Calvino, Knox e Voet tinha bem pouco a ver com o que é hoje chamado de progresso.


Aquele era abertamente hostil a aspectos inteiros da vida moderna, que hoje não são mais contestados nem pelos religiosos mais ferrenhos. Se quisermos encontrar uma relação interna entre certas expressões do velho espírito protestante e a cultura capitalista moderna, deveremos tentar encontrá-la, bem ou mal, não na alegria de viver mais ou menos materialista, ou ao menos anti-ascética, mas nas suas características puramente religiosas.

Mostesquieu (Esprit des Lois, Livro XX, cap, 7) diz dos ingleses que “foram, de todos os povos, os que mais progrediram em três coisas importantes: na religião, no comércio e na liberdade”. Não seria possível que sua superioridade comercial e sua adaptação às instituições políticas liberais tivessem, de algum modo, relação com a religiosidade que Mostesquieu lhes atribui?

Ocorre-nos um grande número de relações possíveis, vagamente percebidas, quando colocamos a questão nesses termos. Será agora nossa tarefa formular com a maior clareza possível aquilo que percebemos confusamente, considerando a infindável diversidade de todo o material histórico. Mas para chegar a isso, é necessário deixarmos de lado os conceitos vagos e gerais com os quais lidamos até aqui, e tentar penetrar nas características peculiares e nas diferenças entre esses grandes mundos do pensamento religioso que existiram historicamente nos vários ramos do Cristianismo. Contudo, antes de continuarmos, se fazem necessárias algumas observações, primeiro quanto às peculiaridades do fenômeno do qual buscamos uma explicação histórica, e depois quanto ao sentido em que tal explicação é possível dentro dos limites dessas investigações.

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